A suspensão da produção e venda de produtos da marca Ypê ocorreu após duas denúncias feitas pela rival Unilever entre outubro de 2025 e março de 2026 à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e à Secretaria Nacional do Consumidor (Senacon). As acusações apontaram suposta contaminação microbiológica em detergentes e lava-roupas da Química Amparo, que negou a situação.
Segundo documentos obtidos pela Folha de S. Paulo e divulgados nesta quinta-feira (14), testes contratados pela Unilever identificaram a bactéria Pseudomonas aeruginosa em produtos da concorrente. A multinacional afirmou que o caso representava “iminente risco à saúde e segurança dos consumidores” e indicava “falha das boas práticas de fabricação”.
A Gazeta do Povo procurou a Unilever e a Química Amparo para se pronunciarem sobre a denúncia e aguarda retorno. À Folha de S. Paulo, a multinacional afirmou que costuma realizar testes dos seus próprios produtos e, eventualmente, da concorrência, o que seria uma prática comum do setor.
“A depender dos resultados destes testes, em respeito ao consumidor, as autoridades competentes são notificadas. Quaisquer investigações são conduzidas exclusivamente pela autoridade, que avalia as diligências, fiscalizações e testes que entender necessários para a tomada de decisão”, afirmou em uma nota à reportagem.
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A Anvisa confirmou o recebimento das denúncias feitas pela Unilever e a abertura de uma investigação contra a Química Amparo. Segundo a agência, as representações foram registradas sem anonimato através do sistema governamental Fala.BR.
“A lei 6.360/76 exige que o produto seja seguro e adequado ao consumo/uso e a lei 6.437/77 transforma o descumprimento sanitário em infração administrativa punível”, afirmou a Anvisa em nota.
Após as denúncias, a agência reguladora realizou duas inspeções na fábrica da Ypê em Amparo, interior de São Paulo. Neste mês, a agência determinou a interrupção da fabricação e comercialização de detergentes, lava-roupas e desinfetantes líquidos produzidos na unidade.
A Química Amparo contestou as acusações e afirmou que não existe regra da Anvisa que proíba a presença da bactéria em produtos saneantes. A empresa declarou ainda que “os testes e pretensos estudos realizados ou encomendados unilateralmente pela Unilever não têm a necessária isenção”.
O que dizem as denúncias
Na primeira denúncia, a Unilever informou ter contratado o laboratório Charles River para analisar os produtos da Ypê. O documento afirma que a bactéria pode causar infecções e possui resistência conhecida a antibióticos.
A multinacional também alegou que a Química Amparo teria iniciado um “recolhimento silencioso” de produtos antes da atuação oficial dos órgãos públicos. Segundo a denúncia, no entanto, a empresa continuava promovendo publicidade do Tixan Ypê Express enquanto os itens seguiam no mercado.
Em uma segunda denúncia, apresentada em março, a Unilever afirmou que novos testes encontraram ao menos 14 lotes contaminados, incluindo detergentes Ypê. O texto cita ainda a presença de materiais genéticos de outras bactérias consideradas potencialmente nocivas à saúde.
Ypê critica ação da concorrente
A Química Amparo reagiu duramente às acusações da Unilever e afirmou ter recebido as denúncias “com surpresa e indignação”. A fabricante brasileira argumenta que não existe norma da Anvisa que estabeleça limite para a presença da bactéria em produtos saneantes, diferentemente do que ocorre com cosméticos.
“Os testes e pretensos estudos realizados ou encomendados unilateralmente pela Unilever não têm a necessária isenção para subsidiar medidas tão gravosas”, disse em nota. A companhia também declarou ter contratado especialistas independentes e laboratórios próprios, cujos laudos não identificaram microorganismos patogênicos nos produtos analisados.
A fabricante da Ypê afirma ainda que a bactéria citada está amplamente presente no meio ambiente e que sua presença isolada não significa, necessariamente, risco direto ao consumidor. Em outra frente, a empresa negou ter promovido retirada de produtos do mercado e afirmou que vem ganhando participação sobre a rival no setor de lava-roupas.
“Considerando o tempo médio de cerca de três meses para o consumo dos produtos da Ypê, é intrigante como a Unilever teria conseguido adquirir no mercado, quase um ano mais tarde, produtos fabricados em julho de 2025, com o objetivo de testá-los de tempos em tempos e fundamentar denúncias”, completou na resposta.